Rastreamento mostra alta concentração no setor

Por Maurício Hashizume
Colaborou Maurício Monteiro 

Tradings têm larga participação e influência nos negócios (Foto: Maurício Hashizume)

Rastreamentos exclusivos de cadeia produtiva feitos pela Repórter Brasil revelam que toda essa disputa entre megaprodutores nacionais e estrangeiros está, na realidade, sob um único “guarda-chuva”, marcado pela forte presença dos próprios governos (estadual e federal) e das chamadas tradings da soja. Estas últimas atuam largamente como financiadoras e intermediárias, fomentando e comprando de produtores em todo o Brasil para escoar para o mercado internacional.

As fazendas controladas pela El Tejar, por exemplo, mesmo com pouquíssimos empregados para o porte do empreendimento, estão inscritas no Programa de Incentivo À Cultura do Algodão (Proalmat), mantido pelo governo estadual do Mato Grosso, que fornece redução de 75% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do produto. Incentivos fiscais e outros tipos de benefícios oferecidos pelas instituições estatais são muito comuns para os poucos que podem muito. Não apenas no Mato Grosso.

Além disso, em 2009, a própria Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), fez compras diretas da Fazenda Aeroporto, arrendada pela empresa “O Telhar”, da ordem de R$ 2,5 milhões para a aquisição de soja de apenas uma das áreas mantidas pelo grupo. Os dados são da própria Controladoria-Geral da União (CGU).

Arrendada pelos argentinos, a propriedade em questão localizada em Sinop (MT), já foi flagrada com mão de obra escrava em 2004. Por causa da fiscalização que encontrou 53 pessoas nas referidas condições, a fazenda foi incluída no final de 2006 na “lista suja” do trabalho escravo, mas foi posteriormente excluída, em julho de 2007, por conta de uma liminar judicial.

Como não poderia deixar de ser, a El Tejar também comercializa seus produtos com praticamente todas as grandes tradings como Bunge, Cargill, ADM, Louis Dreyfus Commodities (LDC) e a própria Amaggi. Em entrevista em que alertava para os riscos dos reflexos da crise nos países ricos da Europa e nos Estados Unidos para na produção agropecuária brasileira, a senadora Kátia Abreu estimou que aproximadamente 65% dos financiamentos para a produção de grãos vêm dessas tradings transnacionais do agronegócio.

Ameaças e escravidão

Entre os anos 2000 e 2010, 124 pessoas receberam ameaças de morte no Mato Grosso. Do grupo em questão, oito foram assassinadas. Mais de 70% das mortes ceifaram a vida de lideranças ou dirigentes de organizações de trabalhadores. O relatório de 2011 do Fórum de Direitos Humanos e da Terra chama atenção para o caso dos padres Paulo Cesar Moreira Santos e Rosécio Santana, da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), que teriam sofrido intimidação por parte do prefeito de Serra Nova Dourada, Valdivino Cândido (PMDB), conhecido como “Nenenzão”. Publicamente, o acusado desmente e diz apoiar o trabalho dos religiosos, representados pela emblemática figura de Dom Pedro Casaldáliga.

Outra ameaça citada no documento diz respeito ao caso de Rosimeire Rodrigues Nardes de Campos, da Associação dos Pequenos e Mini Produtores Rurais da Baía do Campo, que faz parte do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Segundo Rosimeire, a situação de tensão entre grupos que abandonaram o projeto e outras famílias que lutam por um pedaço de terra no Assentamento Santa Filomena, em Poconé (MT), tem se traduzido em ameaças a ela e ao vice-presidente vindas de “pessoas que deveriam estar residindo no assentamento”.

Mato Grosso permanece apenas atrás do Pará no triste ranking dos Estados com maior número de trabalhadores libertados de condição análoga à de escravos. De acordo com recente levantamento realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) – com base nos números do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e em outras fontes adicionais do poder público e da sociedade civil -, quase 5,8 mil pessoas que eram mantidas em trabalho escravo contemporâneo no Estado tiveram de volta a liberdade ao longo dos últimos 16 anos.

Continuação:
1. Contradições marcam avanço do agronegócio
2. Nacionalismo ruralista não resiste à chance de lucro
3. Presença estrangeira se combina com especulação
5. Maraiwatsede símboliza poderio da “lei do mais forte”

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