Lógica da monocultura sufoca agricultura familiar

Por Fabiana Vezzali

Transporte de cana é intenso na rodovia que corta município (Foto: Escravo, nem pensar!)

Ao mesmo tempo em que dinamiza a economia local com a geração de empregos e a arrecadação de tributos no município, a monocultura da cana desafia a permanência e o desenvolvimento da agricultura familiar no município de União (PI).

O relato de Marcelo Cruz, professor de uma escola estadual local, revela a força da atração que o corte de cana exerce sobre os jovens. Muitos de seus alunos do Ensino Médio, com idades que variam entre 18 e 30 anos, são cortadores. O docente diz tentar debater com os alunos os impactos do agronegócio no microcosmo que os cerca.

“A maioria dos alunos são da zona rural e sofrem desse assédio da usina Comvap, que tem um peso econômico no município. E por isso termina sendo inquestionável a presença e a atuação da Comvap aqui”, comenta. De acordo com ele, “como a Comvap vem com o fator econômico, que movimenta a cidade, que gera imposto para a cidade, é muito complicado você fazer o discurso de que a Comvap `traz benefícios, mas também traz problemas`”. Mesmo nesse cenário, ele insiste com suas tentativas de conscientização dos alunos.

A pressão se estende também aos que dispõem de um pedaço de terra. Valmir Barros, jovem morador do assentamento Vazante, localizado a 32 km do centro de União (PI), convive todo ano com a realidade da migração. A despeito da perspectiva gerada pelo assentamento, seu irmão e outros conhecidos saem frequentemente em busca trabalho em outros Estados. “Eles vão trabalhar fora em serviços mais pesados na construção civil, no corte de cana”. Três dias antes de falar com a reportagem, o irmão de Valmir se lançara em nova empreitada. “Foi para Araçatuba (SP) trabalhar com pré-moldados. Vai ficar de um a dois anos”. Segundo ele, “depois de um certo período, ele vem e fica, enquanto recebe o Seguro [Desemprego]. Quando ele fica por aqui, não tem outra renda. Aí só gasta o que traz”.

No entendimento de Valmir, a luta pela sobrevivência se impõe ao irmão e colegas. “Eles têm a necessidade de novos recursos, mas não tem emprego porque não têm formação profissional. Por isso, acabam voltando novamente [a migrar]. E assim acontece com muitos”. Ele aponta que há ainda “os que casam e levam a família para lá”. “Outros deixam a família aqui e trabalham lá por nove meses, um ano, e assim ficam sempre migrando”, emenda.

O assentamento em que Valmir vive com sua família foi criado há sete anos. Há acesso à água e à luz elétrica. Os assentados aguardavam uma linha de financiamento do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) para comprar máquinas e expandir a produção agrícola de forma coletiva. Enquanto isso, criavam alguns animais, consumiam o que plantavam e comercializavam a parte excedente da lavoura. Obtinham uma pequena renda com o óleo de coco do babaçu e da produção artesanal do azeite de babaçu. Os que desejam aumentar seus ganhos e não possuem formação profissional para trabalhar em outros setores, salienta Valmir, acabam indo mesmo a outros pontos à caça de oportunidades.

“Ainda é expressiva a quantidade de pessoas que trabalham na agricultura familiar no Piauí”, confirma Laura Emilia de Carvalho Meireles, diretora de educação e extensão do Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) estadual. “Se continuar com esse grande problema de ocupação de terras que nós temos com a monocultura, a agricultura familiar vai perdendo espaço de referência no que diz respeito à própria identidade das pessoas”.

Continuação:
1. Canavial perto de casa: oportunidade ou risco?
2. Pagamento por produção pressiona cortadores
3. Projeto educacional incentiva debate sobre direitos
5. Prefeitura estuda lei municipal para definir limites

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