Por Fabiana Vezzali
Colaborou Cibele Lima
Atividades da escola envolveram alunos e suas famílias (Foto: Escravo, nem pensar!)
Antonio José Pereira, da secretaria municipal de Agricultura e Meio Ambiente, e Fernanda Nazaré dos Santos, professora de Escola Municipal Hermínio Gomes, situado na zona rural, perceberam o complexo cenário da indústria sucroalcooleira e da situação dos trabalhadores rurais e decidiram debater esses temas, suas causas e consequências. Buscaram, então, envolver estudantes, famílias e trabalhadores no debate sobre a exploração do trabalho escravo e formas de prevenção, tendo como pano de fundo o cultivo da cana no município. Com o projeto “Educar para não virar escravo”, que recebeu apoio do fundo do programa “Escravo, nem pensar!”, coordenado pela Repórter Brasil, organizaram diferentes atividades ao longo de 2011 para discutir essas questões.
“Entre 99 escolas, optamos por uma escola que está dentro de um eixo de conflito entre o agronegócio e a agricultura familiar, pois temos preocupação com relação a essas questões”, explica Antonio. São mais de 3 mil estabelecimentos de agricultura familiar, que somam mais de 46 mil hectares de terra. Para Antonio, trata-se de “um indicador para a gente estar trabalhando, fortalecendo essa identidade da agricultura familiar no município”.
Na unidade escolar em que atua, que fica na comunidade de Maniçobal – a cerca de 30 km do núcleo urbano de União (PI), Fernanda elaborou atividades pedagógicas para falar de escravidão com os alunos e seus familiares. Firmou parceria com uma escola vizinha para fazer caminhadas e rodas de conversa com mães, pais e moradores da comunidade rural. Realizaram ainda um seminário sobre o tema em que buscaram chamar a atenção de uma parcela maior da população sobre a escravidão contemporânea e a expansão da cana.
Fernanda relata que a escola se tornou referência para que familiares dos alunos, e moradores, em geral, esclareçam dúvidas sobre ofertas de trabalho ou busquem orientações sobre direitos.
“Na semana que a gente começou com o projeto, o pai de uma aluna ia viajar a São Paulo. A menina, de 12 anos, entrou em desespero, falando que ele iria virar escravo. Ela pediu ao pai para conversar comigo, que só assim ela deixaria ele viajar”, conta a professora. “Ele disse que ia por uma empresa conhecida aqui do Piauí. Só então ela teve confiança”. Fernanda relembra as palavras da menina: “‘Papai, quando a gente conhece as coisas, a gente tem que passar’. Aí eu entendi que ela já estava por dentro do que é prevenir contra o ‘gato’ e tentou passar para o pai. Ele voltou e foi à escola conversar, falar que estava trabalhando bem, que não precisava se preocupar”.
O programa “Escravo, nem pensar!” realizou sua primeira ação em União (PI) ainda em 2005. Naquela ocasião, professores e lideranças foram convidados a debater formas de prevenção ao trabalho escravo rural. A localidade era então apontada como relevante “exportadora” de mão de obra escrava, pelos altos índices de trabalhadores submetidos a esse tipo de exploração – tanto no próprio Piauí como em outras regiões.
Alguns anos depois, esse quadro se alterou e o município já não se apresenta entre os principais locais de origem dos libertados de situações análogas à de escravo. Mas a migração para buscar trabalho e melhores condições de vida continua, conforme o caso já citado de Antonio Osmar insiste em nos mostrar. Mesmo sem estatísticas precisas, os integrantes do STR de União (PI) reconhecem o alto número de trabalhadores que deixam o município. “Nossos trabalhadores já conhecem o Brasil todo. Eles sabem onde estão as fontes [de trabalho]”, conta o sindicalista Raimundo.
Continuação:
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