Riscos embutidos rondam pequenos produtores

Por Verena Glass

Diferente dos vizinhos, seu Antonio dispõe de estrutura para cultivo (Foto: Verena Glass)

Do outro lado da Rodovia PA-252, o aposentado Antonio dos Santos Oliveira, de 63 anos, estava em situação um pouco melhor. Dono de 125 hectares de terra, ele plantou 10 de dendê, mas vinha obtendo renda de uma sólida produção de urucum, pimenta, mamão, coco, banana, melancia e laranja. Sem os filhos por perto, Antonio contrata mão de obra externa, custeada pela fruticultura da propriedade. Seu dendezal exibia condições relativamente adequadas.

Com intermediação da Biovale, o agricultor tomou um empréstimo de R$ 52,2 mil com o Basa, mas sustentou também não ter contrato de parceria com a empresa. Quanto aos gastos, disse ter comprou 1.430 mudas a R$ 14 cada, perfazendo uma dívida inicial de R$ 19,6 mil com a empresa. A isto, adiciona o adubo entregue pela Biovale de três em três meses, e o glifosato (agrotóxico), que é aplicado também periodicamente, de dois em dois meses.

“Para 10 hectares, uso 20 litros de veneno, e gasto R$ 200”, explicou. Disse, contudo, não gostar da imposição. “É muito veneno usado nessa terra. Mata tudo, depois vai pra água e Deus sabe os estragos que vai fazer no futuro”, disse. Ele também confirmou não ter licença ambiental para fazer o dendezal. Mesmo assim, assegurou não ter tido nenhum problema. Somente preocupação. “Hoje, as matas se acabaram. Parece até que o sol está mais perto da terra. Está muito quente. A gente sente muita tristeza, e cansaço. É cada vez mais duro trabalhar no campo nessas condições”.

Questionado sobre as expectativas com a parceria com a Biovale, Antonio é reticente. “Eu tenho minhas outras plantações. Tenho condições de pagar gente de fora para trabalhar e pagar as dívidas no banco. Para as outras famílias daqui eu acho que vai ser um desastre. No começo, eles mandaram uns técnicos para dar assistência. Agora não aparecem mais. A empresa me procurou, contaram muitas histórias bonitas de dinheiro e futuro bom, e resolvi arriscar. Mas quer saber a verdade? Esse dendê, meu não é. Eu faço é o trato, mas o dendê é deles mesmo”.

A realidade do microcosmo das famílias que vivem à beira da Rodovia PA-252, no meio da Amazônia, justifica as dúvidas sobre o futuro dos projetos de integração de dendê. Como pioneiro na parceria com agricultores familiares, e levando em conta a experiência de cerca de oito anos no projeto, Túlio Dias, gerente de responsabilidade socioambiental da Agropalma, garante que a empresa acabou criando uma relação muito próxima com as famílias parceiras. “Mas não damos conta de resolver todos os problemas. Se não tiverem grande motivação, não vão bem”.

“Temos técnicos que trabalham exclusivamente com as famílias, e hoje cerca de 10% dos parceiros estão muito mal. Se não tivesse esse acompanhamento próximo, seriam 30%”, avalia Tulio. Segundo ele, os projetos de empresas como Biovale e Petrobras, com mais de mil agricultores, são temerosos. “Com nossos 185 parceiros, já é complicado. Imagine como será com mais de mil famílias? Será preciso muita assistência técnica, muito trabalho no campo. Se o manejo for descuidado, a produção será menor e o custo de produção, maior. Isso achata a renda. E o perigo de fracasso aumenta bastante”.

Continuação:
1. Expansão do dendê pela Amazônia gera problemas
3. Empréstimos, gastos e ordens embaralham processo
4. Trabalho desgastante se assemelha ao corte de cana
5. Exigência de licença ambiental fica no discurso

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